1 de Novembro de 2025
Como priorizar tech debt com o PM
Dívida técnica quase nunca entra na fila sozinha. Ela precisa ser traduzida em risco, custo e impacto para virar decisão compartilhada.
Andrews Ribeiro
Founder & Engineer
4 min Intermediario Pensamento
O problema
Muita conversa sobre tech debt dá errado antes mesmo da decisão começar.
Engenharia fala:
- “isso precisa ser refeito”
- “essa base está horrível”
- “não dá para continuar assim”
Produto ou PM escuta:
- “vocês querem parar entrega”
- “isso não gera valor agora”
- “estão tentando empurrar refactor infinito”
E pronto.
A conversa vira disputa de agenda em vez de decisão de risco.
Modelo mental
Pensa assim:
dívida técnica só entra na fila direito quando deixa de ser incômodo interno e vira custo explícito para o produto.
Esse custo pode aparecer como:
- bug recorrente
- lentidão para entregar
- risco operacional
- retrabalho toda sprint
- bloqueio para iniciativa importante
Sem essa tradução, a conversa tende a soar moral:
- “o código está feio”
- “isso não é sustentável”
E isso raramente prioriza sozinho.
Quebrando o problema
Nem todo incômodo técnico é dívida técnica relevante
Esse filtro importa.
Tem coisa que é:
- código feio, mas estável
- padrão inconsistente, mas barato de manter
- detalhe arquitetural que irrita, mas não dói no negócio
E tem coisa que já virou cobrança real:
- mexer numa tela quebra outra
- deploy nessa área é sempre arriscado
- mudança pequena demora dias por acoplamento
- incidente sempre volta no mesmo módulo
O segundo grupo merece conversa séria de prioridade.
Produto responde melhor a impacto do que a abstração
Em vez de:
- “precisamos refatorar o módulo”
costuma funcionar melhor:
- “esse módulo está consumindo dois dias extras por entrega e concentrando falha em rollback”
- “se essa parte continuar assim, a iniciativa X vai sair mais lenta e com mais risco”
Você não está simplificando demais.
Está traduzindo.
Dívida técnica grande quase sempre precisa de recorte
Pedido amplo demais costuma perder a disputa.
Algo como:
- “reescrever o fluxo todo”
é difícil de comprar.
Algo como:
- “isolar cálculo de desconto para parar regressão recorrente em campanha”
fica mais negociável.
A melhor discussão não é feature vs debt
Na prática, quase nunca é uma guerra pura entre:
- entregar valor
- cuidar da base
O enquadramento melhor costuma ser:
- que parte da base precisa melhorar para manter entrega saudável?
- qual dívida já está cobrando caro demais?
- qual pedaço reduz risco ou custo sem abrir obra infinita?
Exemplo simples
Imagine um checkout em que toda campanha promocional vira tensão.
Resposta fraca de engenharia:
precisamos refatorar tudo porque o código está muito ruim.
Resposta melhor:
Hoje cada campanha nova mexe no mesmo bloco de desconto e costuma gerar regressão em recibo ou cálculo final. Em vez de pedir reescrita total, eu priorizaria isolar essa regra em um corte menor. Isso reduz risco recorrente e evita que a próxima campanha custe dias extras de validação manual.
Agora a conversa saiu de “feiúra técnica” e virou:
- custo recorrente
- risco conhecido
- corte negociável
Erros comuns
- Chamar qualquer desconforto técnico de dívida prioritária.
- Defender refactor total sem recorte.
- Falar de arquitetura sem traduzir impacto.
- Tratar PM como obstáculo moral à qualidade.
- Usar dívida técnica como justificativa genérica para desacelerar tudo.
Como um senior pensa
Quem está mais maduro normalmente faz duas separações importantes:
- o que é dor estética vs dor operacional
- o que precisa de obra grande vs corte menor e útil
Também costuma entrar na conversa com tradução pronta:
- risco que fica se nada mudar
- ganho concreto do corte proposto
- custo de oportunidade
Isso melhora bastante a aliança com produto porque a decisão deixa de parecer tribal.
O que o entrevistador quer ver
Quando esse tema aparece em entrevista, o avaliador costuma procurar:
- capacidade de priorizar dívida com critério
- tradução de impacto técnico para impacto de negócio
- maturidade para negociar com PM sem cinismo
- noção de recorte em vez de reforma infinita
Uma resposta forte costuma soar assim:
Eu tento não defender tech debt como conceito abstrato. Primeiro separo o que é desconforto técnico do que já virou custo real de entrega, risco ou bug recorrente. Depois traduzo isso para impacto que produto consegue avaliar e proponho um corte menor, negociável, em vez de pedir reescrita total. Assim a conversa vira decisão compartilhada, não guerra entre engenharia e PM.
Dívida técnica mal explicada parece capricho. Dívida técnica bem explicada parece proteção da capacidade futura do produto.
Resumo rápido
O que vale manter na cabeça
- Tech debt não deveria ser defendida como virtude abstrata; ela precisa ser ligada a risco, custo ou perda de velocidade real.
- Produto não precisa concordar com pureza técnica, mas precisa entender o impacto de não agir.
- Priorizar dívida técnica bem costuma passar por reduzir o problema a fatias visíveis e negociáveis.
- Entrevista forte nesse tema mostra tradução entre engenharia e negócio, não ressentimento entre áreas.
Checklist de pratica
Use isto ao responder
- Consigo explicar uma dívida técnica em termos de risco, custo recorrente ou impacto de entrega?
- Sei diferenciar dívida técnica real de desconforto técnico ou preferência de arquitetura?
- Consigo propor cortes menores em vez de pedir limpeza total do sistema?
- Sei defender melhoria estrutural sem colocar produto como inimigo da qualidade?
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