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Eventos de produto: como instrumentar sem gerar lixo analítico

Como instrumentar eventos de produto de um jeito que ajuda decisão, debugging e aprendizado sem virar coleção de nomes quebrados e dashboards vazios.

Andrews Ribeiro

Andrews Ribeiro

Founder & Engineer

O problema

Tem time que trata instrumentação como tarefa menor.

Algo como:

  • “coloca um tracking aí”
  • “depois a gente organiza”
  • “manda tudo que for possível e vê o que usa”

Quase sempre termina do mesmo jeito.

Você ganha:

  • eventos duplicados
  • nomes inconsistentes
  • propriedades sem padrão
  • dashboards que parecem ricos, mas não respondem pergunta nenhuma

Esse é o ponto central:

dado demais e sem contrato quase sempre vira dado inútil.

Modelo mental

Pense em evento de produto como contrato de observação.

Você está dizendo:

  • qual comportamento importa
  • quando esse comportamento aconteceu
  • com qual contexto mínimo ele precisa ser interpretado

Isso não é muito diferente de modelar uma API.

Você não quer:

  • nome aleatório
  • shape instável
  • semântica que muda sem aviso

Com evento é a mesma coisa.

Se o contrato é fraco, a leitura depois vira adivinhação.

Quebrando o problema

Nem tudo merece virar evento

Esse é o primeiro corte.

Evento deveria existir quando ajuda a responder algo como:

  • usuários chegaram até esta etapa?
  • desistiram onde?
  • usaram essa capacidade nova?
  • erro aconteceu em qual parte da jornada?
  • mudança de fluxo melhorou ou piorou comportamento?

Se a resposta for só:

  • “vai que um dia alguém queira saber”

normalmente o evento nasce ruim.

Evento descreve comportamento, não implementação

Esse erro aparece muito.

Nome fraco:

  • clicked_blue_button
  • modal_open_v2
  • submit_form_new

Esses nomes envelhecem mal porque grudam em detalhe de interface.

Nome melhor tenta representar a intenção ou etapa de produto:

  • signup_started
  • checkout_payment_submitted
  • search_result_opened

Detalhe visual pode virar propriedade quando realmente importar.

Mas o nome principal deveria sobreviver a refactor de layout.

Propriedade existe para explicar contexto, não para carregar o mundo

Outro extremo comum é o payload obeso.

O evento leva:

  • estado da tela inteira
  • objeto inteiro do usuário
  • pedaços de texto arbitrários
  • flags que ninguém entende

Isso cria três problemas:

  1. custo e complexidade desnecessários
  2. risco maior de privacidade
  3. análise pior, porque ninguém sabe o que é confiável

Boa propriedade costuma responder:

  • qual variante estava ativa?
  • em qual plano ou segmento isso ocorreu?
  • qual origem do fluxo?
  • houve erro? qual classe?

Se a propriedade não ajuda interpretação, ela provavelmente está sobrando.

Momento do disparo importa mais do que parece

Tem evento certo disparado no momento errado.

Exemplo clássico:

  • registrar checkout_completed quando a pessoa clicou no botão, não quando a compra confirmou

Isso destrói a métrica.

A pergunta precisa ser:

em que momento eu realmente posso afirmar que esse comportamento aconteceu?

Clique, tentativa, sucesso e erro são momentos diferentes.

Misturar isso gera leitura falsa.

Taxonomia simples já resolve mais do que parece

Você não precisa começar com enciclopédia.

Mas precisa de regra mínima.

Algo como:

  • verbo no passado ou particípio consistente
  • nomes orientados a jornada
  • propriedades comuns com convenção estável
  • distinção clara entre tentativa, sucesso e falha

Sem isso, cada pessoa manda o evento do jeito que quiser.

E o dado vira dialeto local.

Exemplo simples

Imagine um fluxo de cadastro.

Instrumentação ruim:

  • clicked_register_button
  • register_submit
  • sign_up_done
  • register_error

Cada tela chama de um jeito. Ninguém sabe se done quer dizer clique, request enviado ou cadastro criado.

Instrumentação melhor:

  • signup_started
  • signup_submitted
  • signup_completed
  • signup_failed

Com propriedades controladas:

  • plan_type
  • entry_point
  • error_code quando houver falha

Aqui já existe uma linha de leitura.

Você consegue medir:

  • quantos começam
  • quantos tentam enviar
  • quantos concluem
  • onde falham

Sem precisar reconstruir intenção depois.

O que normalmente dá errado

  • Instrumentar depois que a feature já saiu e tentar remendar significado.
  • Nomear evento pelo componente em vez da jornada.
  • Adicionar propriedade porque “vai que seja útil”.
  • Misturar evento de clique com evento de sucesso.
  • Não combinar regra mínima entre produto, engenharia e analytics.
  • Mudar semântica do evento sem tratar isso como quebra de contrato.

Como alguém mais sênior pensa

Uma pessoa mais madura costuma pensar em três camadas ao mesmo tempo:

  1. produto
  2. operação
  3. longevidade do dado

Produto:

  • que decisão isso precisa apoiar?

Operação:

  • esse evento também ajuda a explicar erro, queda ou regressão?

Longevidade:

  • quando a interface mudar, esse tracking ainda continua legível?

Esse olhar evita tanto o tracking decorativo quanto a instrumentação caótica.

Ângulo de entrevista

Esse tema aparece menos como pergunta literal e mais como follow-up.

Por exemplo:

  • “como você mediria o sucesso dessa feature?”
  • “que eventos você instrumentaria?”
  • “como saberia onde o usuário está abandonando?”

O entrevistador normalmente quer ver se você:

  • mede comportamento real
  • distingue tentativa de sucesso
  • pensa em contrato estável
  • não responde com dashboard genérico

Resposta fraca:

eu colocaria eventos nos botões principais e depois veria os dados.

Resposta forte:

eu escolheria eventos alinhados às etapas da jornada, separando início, tentativa, sucesso e falha. Também manteria nomes orientados ao comportamento de produto, com poucas propriedades estáveis, para que a leitura continue válida mesmo se a interface mudar.

Fechando

Instrumentar bem não é mandar mais evento.

É mandar menos coisa, com mais intenção.

Se o dado não ajuda alguém a decidir, diagnosticar ou aprender, ele está só ocupando espaço.

No fim, tracking bom parece simples.

Mas essa simplicidade normalmente é sinal de que alguém pensou direito antes.

Resumo rápido

O que vale manter na cabeça

Checklist de pratica

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